Este é o verão da despedida,
Eu sei, e dói-me tanto, tanto!
Ao deitar ouvi o último acalanto
Da Matilde, a mim, já tão crescida,
E os sonhos que sonhei, quase pungentes
Com sinais de adeuses e viagens,
O trenzinho de fumaça e suas mensagens
De partidas e névoas iminentes...
Oh! Vento, meu comboio de estação!
Não posso o casarão abandonar,
A vinha e o vinhedo em solidão
A esperar mais uma dança do lagar
Desta Alma em branco riso temporão
Com a saia arrepanhada, a patear...
10/01/2007
segunda-feira, 20 de julho de 2009
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Quando sopra o vento no meu Pampa (de Alma Welt)
15
Quando sopra o vento no meu pampa
Eu corro para fora do meu quarto
E sinto como revivendo o parto
Que me deu vida e jogará na campa.
Então eu rasgo o meu vestido ao vento
E me entrego nua e inteira à ventania
Sentindo entrar carícia nada fria
Que gera um orgasmo longo e lento.
Ó vento meu peão, ó haragano,
Cálido amante que ejacula a chuva
E não se avista com o velho Minuano
Que quando sopra gela-me na veia
Qual fosse de mim mesma a vã viúva
Colhendo-me na minha própria teia!
05/12/2006
A minha casa, perdida (de Alma Welt)
(34)
A minha casa, perdida neste prado,
Brota do solo como se fora encantada,
O limo já recobre seu telhado
E as heras a põem meio assombrada.
E se as nuvens recobrem o meu pampa
E começa o tropel da trovoada
Eu sinto como se abrisse a tampa
Da caixa da Pandora atormentada
Que sou, esta Alma dividida
Entre a paixão da Arte e da Vida
A vagar pelo jardim anoitecido
Enquanto o Minuano não me venha
Ao encontro, buscar-me, e como senha
Entoar sussurrante o seu gemido...
18/12/2006
O Vento e o Maestro (de Alma Welt)
(170)
Ontem soprou forte o minuano
E bateu todas as portas e janelas
E ainda passou por baixo delas
Para fazer vibrar nosso piano
Que pôs-se a tocar feito um espectro
De música, se é que isso houvesse,
Como uma paródia do Maestro
Que legara seu silêncio como prece
Pois pra que este emoldurasse
Sua música e em nós reverberasse
Nosso pai o tocava de outro plano
Então pedi perdão e o dedilhei
Pr'afugentar rei Mino, o tal tirano
Que invadira as cordas do Steinway...
22/06/2006
O balanço da vida (de Alma Welt)
(178)
Ontem grande árvore caiu
Na orla da minha pradaria
Arrancada por imensa ventania
Como por muito tempo não se viu.
E então eu fui examiná-la
E constatei que era roída por cupim.
Num instante cessei de deplorá-la
Meditando como tudo tem um fim,
E cogitei que o vento a derrubar
Não fora por acaso ou penitência
Nem tampouco puro gesto de clemência,
Pois não há injustiça na Natura
E tudo segue um balanço regular:
Vida e Morte, não sorte e desventura.
28/06/2006
Estória da Matilde (de Alma Welt)
(199)
Matilde, que agora reza e reza,
Houve tempo em que abria para mim
E contou-me que dentro dela pesa
Um remorso imenso e sem fim.
Ela deixara um filho natural
Num orfanato, só, por indigência,
Mas ao buscá-lo em penitência,
Soube de algo terrível e fatal:
A criança se fora num inverno
Em que o minuano assaltara
O casarão gelado e a levara...
Então Matilde andou pelo Inferno
Por dez anos até que o Galdério
A encontrou a dormir num cemitério.
12/01/2007
Sonho pampeiro (de Alma Welt)
(211)
Pleno pampa poderosa pradaria,
Um céu maior e mais profundo;
De noite as estrelas e seu mundo
A mirar-nos com sobranceria.
Ah! As alongadas sombras das coxilhas,
Pela branca lua cheia a surfá-las
São algumas das tantas maravilhas,
Que eu quisera em sonho suborná-las
E assim, nua, de noite, em desatino
Cavalguei até dormir por sobre a crina
E traída ser trazida ao meu destino,
Pois eu quis perder-me, e feminina,
Ser cobiçada e levada por rei Mino*
Ao seu oculto palácio da campina...
15/01/2007
Nota da editora:
"rei Mino"- Os leitores já familiarizados com o universo poético da Alma, sabem que na sua mitologia particular ela assim denominava o vento minuano, que lhe inspirava temor, respeito e fascinação. (Lucia Welt)
Prece ao Minuano (de Alma Welt)
(227)
Ó Vento Minuano do meu Pampa,
Grande rio que desce a cordilheira
Do mundo castelhano como rampa,
Para fluir no prado em corredeira
E logo liso e frio sob as portas
Para gelar o meu peito desregrado
Que teme ter aberto suas comportas
E agora estar sendo castigado!
Rei Mino, me prosterno amedrontada
E oro ao deus dos ventos que em vigia
Abriu as tuas eclusas de enfiada
E deixou teu forte rio desatar
Do imenso coração da pradaria
Para com direito me humilhar...
(sem data)
Nota da editora
Acabo de encontrar mais este magnífico soneto perdido entre seus papéis e que não compreendo como a Alma não publicou na ocasião no site RL, onde estava colocando diariamente a série Pampiana, até a sua morte tão chocante e repentina no dia 20/01/2007.
*Este soneto me faz recordar a temerosa veneração da Alma pelo vento Minuano, que quando soprava a deixava fora de si, em pânico ou delirante, de tal maneira que Matilde e eu tínhamos que amarrá-la para não sair correndo na pradaria ou debatendo-se no chão de maneira impressionante e dolorosa. Alma era demasiado sensível aos elementos e parecia ter um estranha integração com a paisagem, para a alegria ou para dor. (Lucia Welt)
Sendas farroupilhas (de Alma Welt)
234
Caminho pelas sendas farroupilhas
Que ainda se vêem aqui no prado,
E serpenteiam servindo como trilhas
Para os peões de hoje e nosso gado.
E me vejo de repente acompanhada
De visões dos nossos companheiros
Montados, zurzidos por pampeiros
A procurar a sua última invernada
Logo sofrida, espectral, penada
Pois que nunca houve paz impune
Pros que vivem e morrem pela espada.
Então volto ao casarão atormentada
Como alguém que a guerra ainda pune
Com os ecos da última emboscada...
14/01/2007
Pedindo emprêgo (de Alma Welt)
250
O peão batendo esporas se achegou
Tirando o chapéu mas sem modéstia,
E pra justificar que o tirou
Com rubro lenço secou a alta testa:
"Buenas, comadre, com quem falo?
Preciso falar com o patrão,
Venho vindo de lá da São Gonçalo
Onde dei de prancha num poltrão
Que sem competência ou a machesa
Perante o povo, a Pampa e o pampeiro
Quis tirar-me a china e a realeza.
Mas parece que falo com a rainha...
Poderás ver que sou bom cavaleiro,
E mantenho minha faca na bainha."
10/07/2006
O claro e o escuro da Alma (de Alma Welt)
278
Amanhã verei meu ser refeito
E envolto em aura, libertado,
Serei o ser que sou, o ser eleito
De mim mesma, aceso, iluminado.
Farol na noite eterna de esperança
Ou sol no dia claro sempiterno,
O timbre escolhi eu desde criança
Ao escolher o amor, o bom e o terno.
Mas, bah! se o Cerro esfria e escurece
E pelas faldas onduladas de coxilhas
Do Jarau o minuano escorre e desce,
Da alma o lado escuro me fascina
Ao perceber o quanto, sim, ele me anima,
Esse contraste que produz as maravilhas!
(sem data)
Nota
Com o seu poder de criar ou de realimentar mitos, Alma parece dizer que o minuano nasce no Cerro do Jarau (vide A Salamanca do Jarau, de João Simões Lopes Neto) e quando este escurece e esfria, escorre pelas encostas e corre pela pradaria, como um desbordamento do lado escuro do mundo. (Lucia Welt)
A insensata nau (de Alma Welt)
297
Disparam-me das torres pensamentos
Contra o mastro desta nave de sonetos.
Meus bispos e a rainha, muito lentos,
E os peões, ou marinheiros, são suspeitos
De sedição ou motim perto das ilhas
Na insensata nau que é o casarão
Entre as vagas verdes das coxilhas,
E o minuano a soprar... mas no verão.
Porém, poder perdido, perco o punho
De ferro com que manobrava a vela
E o leme que era rota e testemunho
Do meu ser racional e orientado
Com que outrora pilotava a caravela
Do meu sonho lúcido e acordado.
(sem data)
O último comboio (de Alma Welt)
304
Não estarei aqui quando voltares,
Ó vento-rei do meu sonho passado,
Sinto que as partidas e os “chegares”
Já não escamoteiam o meu fado.
Sei que vou partir, o trem vem vindo
A silvar e a ranger na noite enorme,
Na plataforma já vou me consumindo
A esperar que a alma se conforme.
Espera, dá-me tempo, ó minuano!
E tu, meu trenzinho de fumaça,
Me deixe ficar só mais um ano
Enquanto assisto aqui nesta varanda
O comboio do meu próprio ser que passa
Como o fumo, o vapor e a lavanda...
16/01/2007
Nota
Emocionou-me muito encontrar este soneto manuscrito, com a tinta borrada provavelmente pelas lágrimas de minha irmã. Alma pressentia claramente a sua morte iminente, que ocorreria quatro dias depois (20/01/2007). Derramando por minha vez, no teclado, minhas lágrimas, mal pude digitá-lo e vertê-lo para o castelhano. (Lucia Welt)
Ecos no casarão (de Alma Welt)
317
De noite percorro o casarão
Por soturnos corredores silenciosos
Mas cheios de murmúrios capciosos
Das memórias do último verão
Quando a casa abrigava a alegria
Dos hóspedes ruidosos e parentes
Que lotavam como fosse hospedaria
Estes quartos agora tão silentes.
Ai! A casa já suspira de carência,
E chora e geme em sua demência
Tremelicando ao vento da campina!
Só restou Matilde, a mais fiel,
Galdério na charrete, sua sina,
E esta Alma que vaga, assim, ao léu...
16/01/2007
Nota
Encontrei nesta manhã de domingo, na arca da Alma, este belo e triste soneto, que denuncia o estado de espírito da Alma nos seus últimos dias. Infelizmente eu estava com meus quatro filhos (dois da falecida Solange, nossa irmã mais velha)em Alegrete e nada pude fazer por minha irmã, que eu não imaginava assim, tão desesperada... (Lucia Welt)
A ribalta (de Alma Welt)
345
Sou feliz, meus leitores, reconheço,
Pois amo e sou amada, nada falta.
Em torno a mim, a teia que não teço:
A platéia calorosa, eu na ribalta.
Atenta aos meus versos de guria,
Pois ainda menina já me ouviam,
Que somente ventos fortes impediam
Declamar meus versos... que mania!
E assim se me tornou essencial,
Que como respirar eu necessito
Escrever o meu soneto matinal,
Outros tantos depois durante o dia,
Sonetos que, esses sim, tecem o mito
Que me fiz em honra mesma da Poesia!
(sem data)
Nota
Este curioso soneto que acabo de descobrir na arca e de identificar como inédito, contém ao meu ver a chave para o entendimento de como a Alma via o seu fazer poético quase compulsivo: ela tinha consciência de viver através de sua própria poesia, que foi, realmente, erigindo-a em mito vivo, "tecido" soneto por soneto. (Lucia Welt)
O Labirinto do Minuano (de Alma Welt)
356
Encontrei a passagem numa estante
Da fiel biblioteca e nosso gozo
Aqui no casarão, que num instante
Afigurou-se um labirinto perigoso.
Esta noite irei me aventurar
Pelo dúbio corredor mas instigante,
Não deixando todavia de me atar
À ponta de um novelo de barbante,
Mas temo que a passagem, por secreta,
Levará a imponderável metaplano
Que por certo nunca foi a minha meta,
E no centro do sulino labirinto
Estará o minotauro: o Minuano
Que, sim, me levará, eu bem o sinto.
03/11/2006
Nota
*Minuano- Nome do vento típico e famoso das planícies do Pampa. Este vento frio e veloz se insinua sibilante pelas frestas das portas e janelas fazendo cair de súbito a temperatura, enregelando e assustando as pessoas. Alma tinha grande temor por este vento, que quando soprava a deixava fora de si, histérica. Ela chamava o minuano de "rei Mino "e aterrorizada gritava que ele vinha buscá-la. Apavorada, assisti algumas vezes minha irmã perder o controle e debater-se no chão em convulsões quando soprava este vento terrível. Garanto que minha irmã não era epilética, mas sim hipersensível. (Lucia Welt)
Noites abrasadas (de Alma Welt)
375
Noites abrasadas, tão freqüentes
De minha grande dor transfigurada,
Quando o vão clamor pelos ausentes
Deixava o meu rastro pela escada.
Madrugadas doridas entre os galos
E os latidos longínquos na estrada;
Os minutos escorrendo pelos ralos,
Dedos e passos percorrendo o nada.
Depois o som há muito ausente do piano
Negro e mudo, a vir do tétrico Steinway
Que o mestre dedilhava e tanto amei,
Agora que só tons graves se ouvem
Tangidos pelo intruso Minuano
Como arremedo surdo de um Beethoven...
06/01/2007
A Cavalhada (de Alma Welt)
376
A cavalhada vem durante o sono
E passa por mim em sobressalto,
Que desperto então em pleno Outono
Com as folhas varridas para o alto.
E corro, bah! eu corro desde então
Das minhas horas em fluxo contrário
Que buscam varrer-me para o chão
Com seu vento forte e arbitrário,
O Minuano, sim, que se diz dono,
E me quer não como às folhas, mas mulher,
Eu que prefiro os cavalos do meu sono
Que brancos como ondas me seduzem
E no abismal galope me conduzem
Aos páramos profundos do meu ser...
10/03/2005
Fênix (de Alma Welt)
384
Toda a experiência acumulada
Foi vã diante da força do momento
De emoção pungente e desatada
Produzida por antigo sentimento
Que voltou a mim como um pampeiro
Quando confrontei meu próprio amor
Ao vê-lo adentrar o meu terreiro
Vindo em minha direção... o predador!
E então, ó santa ingenuidade!
Um rubor me sobe, ó inocência!
E o tremor substitui toda a saudade.
E como uma donzela de outra era
Voltei a sonhar a tal quimera
Do primeiro amor em sua demência...
(sem data)
Os Tempos e os Ventos (de Alma Welt)
403
Inolvidáveis tardes do meu prado
Quando em silhueta e uma aura
O adeus deste poente agraciado
O rubro dos cabelos me restaura
E junto ao grande umbu frondoso
No alto da colina em pleno pampa
Me vejo tal qual aquela estampa
Do vento que levou o nosso gozo
E então retorno e subo ao casarão
Que anoitecido desperta suas memórias
Como os guris a deslizar no corrimão
De seus jovens sonhos revividos
De outros poentes e outras glórias
De tempos e ventos esquecidos...
(sem data)
O haragano e o minuano (de Alma Welt)
409
O haragano é uma força deste prado,
Irrupção vital e alegre vento
Como fora verão, sem o tormento
Do nosso minuano, o outro lado
Do pampa quando mostra seu semblante,
Gélida, implacável e feia cara...
É então que ess’ outra face nos prepara
Para o longo inverno, duro amante.
E então acolhemos o monarca
E não o usurpador, embora feio,
Com nossos grossos palas e o mateio.
Mas, bah! quando ao açoite a nave geme,
No salão deste sobrado e minha arca
Lanço versos qual se ainda houvesse leme.
Dias tristes (de Alma Welt)
414
Dias tristes do meu pampa, "dias tristes
Como sentir-se viver” disse o poeta,*
Quando abandonávamos os chistes
E tentávamos deixar a vida quieta
E quase hibernados concentrando
Os nossos sentimentos e amores
Na espera paciente de esplendores
Que nos aguardariam triunfando.
E em silêncio vagava com meu Rodo
Embrulhados nos palas, mateando,
Evitando sendas calvas e seu lodo.
E então se nos pegava o minuano
Eu, aninhada em meu irmão, e tiritando,
Poderia assim viver por todo um ano...
(sem data)
Nota
* ... "dias tristes como sentir-se viver"- citação de um verso de um poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
Inverno (de Alma Welt)
415
Quando no meu pampa finde o inverno
E as flores despontarem no jardim
Como se seu brilho fora eterno
E a vida canção cálida e sem fim,
Eu me lembrarei destes momentos
De um calor interno de lareira,
E mais ainda do nosso andar aos ventos
Carregando cuias, bombas e chaleira,
Montados nos queridos alazões
Envoltos nos nossos grossos palas,
Com meus poemas, cismas e razões
De quem somos, por quê aqui estamos,
Enquanto com os dedos tu me calas
E apontas o caminho que trilhamos...
(sem data)
Quando sopra o vento no meu pampa
Eu corro para fora do meu quarto
E sinto como revivendo o parto
Que me deu vida e jogará na campa.
Então eu rasgo o meu vestido ao vento
E me entrego nua e inteira à ventania
Sentindo entrar carícia nada fria
Que gera um orgasmo longo e lento.
Ó vento meu peão, ó haragano,
Cálido amante que ejacula a chuva
E não se avista com o velho Minuano
Que quando sopra gela-me na veia
Qual fosse de mim mesma a vã viúva
Colhendo-me na minha própria teia!
05/12/2006
A minha casa, perdida (de Alma Welt)
(34)
A minha casa, perdida neste prado,
Brota do solo como se fora encantada,
O limo já recobre seu telhado
E as heras a põem meio assombrada.
E se as nuvens recobrem o meu pampa
E começa o tropel da trovoada
Eu sinto como se abrisse a tampa
Da caixa da Pandora atormentada
Que sou, esta Alma dividida
Entre a paixão da Arte e da Vida
A vagar pelo jardim anoitecido
Enquanto o Minuano não me venha
Ao encontro, buscar-me, e como senha
Entoar sussurrante o seu gemido...
18/12/2006
O Vento e o Maestro (de Alma Welt)
(170)
Ontem soprou forte o minuano
E bateu todas as portas e janelas
E ainda passou por baixo delas
Para fazer vibrar nosso piano
Que pôs-se a tocar feito um espectro
De música, se é que isso houvesse,
Como uma paródia do Maestro
Que legara seu silêncio como prece
Pois pra que este emoldurasse
Sua música e em nós reverberasse
Nosso pai o tocava de outro plano
Então pedi perdão e o dedilhei
Pr'afugentar rei Mino, o tal tirano
Que invadira as cordas do Steinway...
22/06/2006
O balanço da vida (de Alma Welt)
(178)
Ontem grande árvore caiu
Na orla da minha pradaria
Arrancada por imensa ventania
Como por muito tempo não se viu.
E então eu fui examiná-la
E constatei que era roída por cupim.
Num instante cessei de deplorá-la
Meditando como tudo tem um fim,
E cogitei que o vento a derrubar
Não fora por acaso ou penitência
Nem tampouco puro gesto de clemência,
Pois não há injustiça na Natura
E tudo segue um balanço regular:
Vida e Morte, não sorte e desventura.
28/06/2006
Estória da Matilde (de Alma Welt)
(199)
Matilde, que agora reza e reza,
Houve tempo em que abria para mim
E contou-me que dentro dela pesa
Um remorso imenso e sem fim.
Ela deixara um filho natural
Num orfanato, só, por indigência,
Mas ao buscá-lo em penitência,
Soube de algo terrível e fatal:
A criança se fora num inverno
Em que o minuano assaltara
O casarão gelado e a levara...
Então Matilde andou pelo Inferno
Por dez anos até que o Galdério
A encontrou a dormir num cemitério.
12/01/2007
Sonho pampeiro (de Alma Welt)
(211)
Pleno pampa poderosa pradaria,
Um céu maior e mais profundo;
De noite as estrelas e seu mundo
A mirar-nos com sobranceria.
Ah! As alongadas sombras das coxilhas,
Pela branca lua cheia a surfá-las
São algumas das tantas maravilhas,
Que eu quisera em sonho suborná-las
E assim, nua, de noite, em desatino
Cavalguei até dormir por sobre a crina
E traída ser trazida ao meu destino,
Pois eu quis perder-me, e feminina,
Ser cobiçada e levada por rei Mino*
Ao seu oculto palácio da campina...
15/01/2007
Nota da editora:
"rei Mino"- Os leitores já familiarizados com o universo poético da Alma, sabem que na sua mitologia particular ela assim denominava o vento minuano, que lhe inspirava temor, respeito e fascinação. (Lucia Welt)
Prece ao Minuano (de Alma Welt)
(227)
Ó Vento Minuano do meu Pampa,
Grande rio que desce a cordilheira
Do mundo castelhano como rampa,
Para fluir no prado em corredeira
E logo liso e frio sob as portas
Para gelar o meu peito desregrado
Que teme ter aberto suas comportas
E agora estar sendo castigado!
Rei Mino, me prosterno amedrontada
E oro ao deus dos ventos que em vigia
Abriu as tuas eclusas de enfiada
E deixou teu forte rio desatar
Do imenso coração da pradaria
Para com direito me humilhar...
(sem data)
Nota da editora
Acabo de encontrar mais este magnífico soneto perdido entre seus papéis e que não compreendo como a Alma não publicou na ocasião no site RL, onde estava colocando diariamente a série Pampiana, até a sua morte tão chocante e repentina no dia 20/01/2007.
*Este soneto me faz recordar a temerosa veneração da Alma pelo vento Minuano, que quando soprava a deixava fora de si, em pânico ou delirante, de tal maneira que Matilde e eu tínhamos que amarrá-la para não sair correndo na pradaria ou debatendo-se no chão de maneira impressionante e dolorosa. Alma era demasiado sensível aos elementos e parecia ter um estranha integração com a paisagem, para a alegria ou para dor. (Lucia Welt)
Sendas farroupilhas (de Alma Welt)
234
Caminho pelas sendas farroupilhas
Que ainda se vêem aqui no prado,
E serpenteiam servindo como trilhas
Para os peões de hoje e nosso gado.
E me vejo de repente acompanhada
De visões dos nossos companheiros
Montados, zurzidos por pampeiros
A procurar a sua última invernada
Logo sofrida, espectral, penada
Pois que nunca houve paz impune
Pros que vivem e morrem pela espada.
Então volto ao casarão atormentada
Como alguém que a guerra ainda pune
Com os ecos da última emboscada...
14/01/2007
Pedindo emprêgo (de Alma Welt)
250
O peão batendo esporas se achegou
Tirando o chapéu mas sem modéstia,
E pra justificar que o tirou
Com rubro lenço secou a alta testa:
"Buenas, comadre, com quem falo?
Preciso falar com o patrão,
Venho vindo de lá da São Gonçalo
Onde dei de prancha num poltrão
Que sem competência ou a machesa
Perante o povo, a Pampa e o pampeiro
Quis tirar-me a china e a realeza.
Mas parece que falo com a rainha...
Poderás ver que sou bom cavaleiro,
E mantenho minha faca na bainha."
10/07/2006
O claro e o escuro da Alma (de Alma Welt)
278
Amanhã verei meu ser refeito
E envolto em aura, libertado,
Serei o ser que sou, o ser eleito
De mim mesma, aceso, iluminado.
Farol na noite eterna de esperança
Ou sol no dia claro sempiterno,
O timbre escolhi eu desde criança
Ao escolher o amor, o bom e o terno.
Mas, bah! se o Cerro esfria e escurece
E pelas faldas onduladas de coxilhas
Do Jarau o minuano escorre e desce,
Da alma o lado escuro me fascina
Ao perceber o quanto, sim, ele me anima,
Esse contraste que produz as maravilhas!
(sem data)
Nota
Com o seu poder de criar ou de realimentar mitos, Alma parece dizer que o minuano nasce no Cerro do Jarau (vide A Salamanca do Jarau, de João Simões Lopes Neto) e quando este escurece e esfria, escorre pelas encostas e corre pela pradaria, como um desbordamento do lado escuro do mundo. (Lucia Welt)
A insensata nau (de Alma Welt)
297
Disparam-me das torres pensamentos
Contra o mastro desta nave de sonetos.
Meus bispos e a rainha, muito lentos,
E os peões, ou marinheiros, são suspeitos
De sedição ou motim perto das ilhas
Na insensata nau que é o casarão
Entre as vagas verdes das coxilhas,
E o minuano a soprar... mas no verão.
Porém, poder perdido, perco o punho
De ferro com que manobrava a vela
E o leme que era rota e testemunho
Do meu ser racional e orientado
Com que outrora pilotava a caravela
Do meu sonho lúcido e acordado.
(sem data)
O último comboio (de Alma Welt)
304
Não estarei aqui quando voltares,
Ó vento-rei do meu sonho passado,
Sinto que as partidas e os “chegares”
Já não escamoteiam o meu fado.
Sei que vou partir, o trem vem vindo
A silvar e a ranger na noite enorme,
Na plataforma já vou me consumindo
A esperar que a alma se conforme.
Espera, dá-me tempo, ó minuano!
E tu, meu trenzinho de fumaça,
Me deixe ficar só mais um ano
Enquanto assisto aqui nesta varanda
O comboio do meu próprio ser que passa
Como o fumo, o vapor e a lavanda...
16/01/2007
Nota
Emocionou-me muito encontrar este soneto manuscrito, com a tinta borrada provavelmente pelas lágrimas de minha irmã. Alma pressentia claramente a sua morte iminente, que ocorreria quatro dias depois (20/01/2007). Derramando por minha vez, no teclado, minhas lágrimas, mal pude digitá-lo e vertê-lo para o castelhano. (Lucia Welt)
Ecos no casarão (de Alma Welt)
317
De noite percorro o casarão
Por soturnos corredores silenciosos
Mas cheios de murmúrios capciosos
Das memórias do último verão
Quando a casa abrigava a alegria
Dos hóspedes ruidosos e parentes
Que lotavam como fosse hospedaria
Estes quartos agora tão silentes.
Ai! A casa já suspira de carência,
E chora e geme em sua demência
Tremelicando ao vento da campina!
Só restou Matilde, a mais fiel,
Galdério na charrete, sua sina,
E esta Alma que vaga, assim, ao léu...
16/01/2007
Nota
Encontrei nesta manhã de domingo, na arca da Alma, este belo e triste soneto, que denuncia o estado de espírito da Alma nos seus últimos dias. Infelizmente eu estava com meus quatro filhos (dois da falecida Solange, nossa irmã mais velha)em Alegrete e nada pude fazer por minha irmã, que eu não imaginava assim, tão desesperada... (Lucia Welt)
A ribalta (de Alma Welt)
345
Sou feliz, meus leitores, reconheço,
Pois amo e sou amada, nada falta.
Em torno a mim, a teia que não teço:
A platéia calorosa, eu na ribalta.
Atenta aos meus versos de guria,
Pois ainda menina já me ouviam,
Que somente ventos fortes impediam
Declamar meus versos... que mania!
E assim se me tornou essencial,
Que como respirar eu necessito
Escrever o meu soneto matinal,
Outros tantos depois durante o dia,
Sonetos que, esses sim, tecem o mito
Que me fiz em honra mesma da Poesia!
(sem data)
Nota
Este curioso soneto que acabo de descobrir na arca e de identificar como inédito, contém ao meu ver a chave para o entendimento de como a Alma via o seu fazer poético quase compulsivo: ela tinha consciência de viver através de sua própria poesia, que foi, realmente, erigindo-a em mito vivo, "tecido" soneto por soneto. (Lucia Welt)
O Labirinto do Minuano (de Alma Welt)
356
Encontrei a passagem numa estante
Da fiel biblioteca e nosso gozo
Aqui no casarão, que num instante
Afigurou-se um labirinto perigoso.
Esta noite irei me aventurar
Pelo dúbio corredor mas instigante,
Não deixando todavia de me atar
À ponta de um novelo de barbante,
Mas temo que a passagem, por secreta,
Levará a imponderável metaplano
Que por certo nunca foi a minha meta,
E no centro do sulino labirinto
Estará o minotauro: o Minuano
Que, sim, me levará, eu bem o sinto.
03/11/2006
Nota
*Minuano- Nome do vento típico e famoso das planícies do Pampa. Este vento frio e veloz se insinua sibilante pelas frestas das portas e janelas fazendo cair de súbito a temperatura, enregelando e assustando as pessoas. Alma tinha grande temor por este vento, que quando soprava a deixava fora de si, histérica. Ela chamava o minuano de "rei Mino "e aterrorizada gritava que ele vinha buscá-la. Apavorada, assisti algumas vezes minha irmã perder o controle e debater-se no chão em convulsões quando soprava este vento terrível. Garanto que minha irmã não era epilética, mas sim hipersensível. (Lucia Welt)
Noites abrasadas (de Alma Welt)
375
Noites abrasadas, tão freqüentes
De minha grande dor transfigurada,
Quando o vão clamor pelos ausentes
Deixava o meu rastro pela escada.
Madrugadas doridas entre os galos
E os latidos longínquos na estrada;
Os minutos escorrendo pelos ralos,
Dedos e passos percorrendo o nada.
Depois o som há muito ausente do piano
Negro e mudo, a vir do tétrico Steinway
Que o mestre dedilhava e tanto amei,
Agora que só tons graves se ouvem
Tangidos pelo intruso Minuano
Como arremedo surdo de um Beethoven...
06/01/2007
A Cavalhada (de Alma Welt)
376
A cavalhada vem durante o sono
E passa por mim em sobressalto,
Que desperto então em pleno Outono
Com as folhas varridas para o alto.
E corro, bah! eu corro desde então
Das minhas horas em fluxo contrário
Que buscam varrer-me para o chão
Com seu vento forte e arbitrário,
O Minuano, sim, que se diz dono,
E me quer não como às folhas, mas mulher,
Eu que prefiro os cavalos do meu sono
Que brancos como ondas me seduzem
E no abismal galope me conduzem
Aos páramos profundos do meu ser...
10/03/2005
Fênix (de Alma Welt)
384
Toda a experiência acumulada
Foi vã diante da força do momento
De emoção pungente e desatada
Produzida por antigo sentimento
Que voltou a mim como um pampeiro
Quando confrontei meu próprio amor
Ao vê-lo adentrar o meu terreiro
Vindo em minha direção... o predador!
E então, ó santa ingenuidade!
Um rubor me sobe, ó inocência!
E o tremor substitui toda a saudade.
E como uma donzela de outra era
Voltei a sonhar a tal quimera
Do primeiro amor em sua demência...
(sem data)
Os Tempos e os Ventos (de Alma Welt)
403
Inolvidáveis tardes do meu prado
Quando em silhueta e uma aura
O adeus deste poente agraciado
O rubro dos cabelos me restaura
E junto ao grande umbu frondoso
No alto da colina em pleno pampa
Me vejo tal qual aquela estampa
Do vento que levou o nosso gozo
E então retorno e subo ao casarão
Que anoitecido desperta suas memórias
Como os guris a deslizar no corrimão
De seus jovens sonhos revividos
De outros poentes e outras glórias
De tempos e ventos esquecidos...
(sem data)
O haragano e o minuano (de Alma Welt)
409
O haragano é uma força deste prado,
Irrupção vital e alegre vento
Como fora verão, sem o tormento
Do nosso minuano, o outro lado
Do pampa quando mostra seu semblante,
Gélida, implacável e feia cara...
É então que ess’ outra face nos prepara
Para o longo inverno, duro amante.
E então acolhemos o monarca
E não o usurpador, embora feio,
Com nossos grossos palas e o mateio.
Mas, bah! quando ao açoite a nave geme,
No salão deste sobrado e minha arca
Lanço versos qual se ainda houvesse leme.
Dias tristes (de Alma Welt)
414
Dias tristes do meu pampa, "dias tristes
Como sentir-se viver” disse o poeta,*
Quando abandonávamos os chistes
E tentávamos deixar a vida quieta
E quase hibernados concentrando
Os nossos sentimentos e amores
Na espera paciente de esplendores
Que nos aguardariam triunfando.
E em silêncio vagava com meu Rodo
Embrulhados nos palas, mateando,
Evitando sendas calvas e seu lodo.
E então se nos pegava o minuano
Eu, aninhada em meu irmão, e tiritando,
Poderia assim viver por todo um ano...
(sem data)
Nota
* ... "dias tristes como sentir-se viver"- citação de um verso de um poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
Inverno (de Alma Welt)
415
Quando no meu pampa finde o inverno
E as flores despontarem no jardim
Como se seu brilho fora eterno
E a vida canção cálida e sem fim,
Eu me lembrarei destes momentos
De um calor interno de lareira,
E mais ainda do nosso andar aos ventos
Carregando cuias, bombas e chaleira,
Montados nos queridos alazões
Envoltos nos nossos grossos palas,
Com meus poemas, cismas e razões
De quem somos, por quê aqui estamos,
Enquanto com os dedos tu me calas
E apontas o caminho que trilhamos...
(sem data)
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