terça-feira, 17 de outubro de 2023

Eu voltaria aqui depois de tudo (de Alma Welt)

 Eu voltaria aqui depois de tudo

Para ser mais uma a assombrar

Este velho casarão a se arruinar

E com seu memorial agora mudo.

 

Juntar-me-ia aos velhos farroupilhas

E também a tantos outros que vieram

E se foram como sombras na coxilha

Que assim abandoná-las não quiseram.

 

E farei juras à Anita e ao Giuseppe

De total fidelidade na desgraça

Que transformou o Pampa numa estepe.

 

E nas longas noites sem o mate

Terei somente o uivo de arremate

Do rei Mino dando ar de sua graça...

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17/10/2023



 

 

quarta-feira, 28 de março de 2018

Sonetinho gaúcho (de Alma Welt)

Não poderia viver longe deste Sul,
Até mesmo deste velho casarão,
E se a rima pro cruzeiro é só Cabul,
O fim do mundo, cabuloso, é meu padrão...

Aqui o vento, dizem, faz a curva
E promete voltar no fim do ano;
Sua rima também a mente turva,
Tudo aqui ecoa o nosso Minuano...

Nosso pampa é absurdo e maravilha:
Não sou Alice mas sou Alma do Mundo,
E os coelhos por aqui só levam chumbo.

Se vieres e adentrares minha porteira
Não esperes comportada churrasqueira,
Aqui o fogo é de chão e o chá fervilha...

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28/03/2018

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A Herdeira do Minuano (de Alma Welt)


Entre os ventos que melhor conheço,
O vento Norte, o Oeste e o Minuano
Deste último o pânico padeço
Pois sei que me espreita ano a ano.

Ele virá me buscar, eu o pressinto,
Pois ouvi a sua voz dentro das noites
Que dizia: “Minha Alma, não te acoites
Se teu vinho não sou, mas absinto...”

“Levar-te-ei comigo em minha sela
Pela coxilha que conheço e que amas,
Mas pra ti não haverá nenhuma vela.”

“Varemos esta escuridão pampeira
Pelos campos e estradas, relvas, lamas,
E serás minha rainha e minha herdeira...”
 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Vento, cavaleiro (de Alma Welt)

Vento, cavaleiro da colina,
Vem buscar-me, ó vento da manhã,
E leva-me contigo à outra sina,
Não me deixes morrer de forma vã.

Deixa-me voar, sou toda aérea
E minha pele é clara como o ar
Sou filha dos elfos, quase etérea
E não queria à terra assim baixar.

É por isso que alço os meus sonetos
E deixo o corpo por instantes
Que é a minha forma de ficar

Entre sonhos e espectros constantes
Que me instigam e lançam os motetos
Que me doam as asas pra me alçar...

(sem data)

O Território do Vento (de Alma Welt)

Os meus dias felizes que se foram,
A memória os guarda, não acabam,
O tempo os não alcança aonde moram,
Do coração e mente não se apagam.

As paredes já estalam de agonia
As pranchas rangem no silêncio
Da solidão que há muito me seguia
E se instalou no casarão imenso...

Mas o poeta não pode ser detido
Nada pode abater o incansável
Que busca o território prometido,

O plano onde os sonhos são a norma
E constroem nova vida no Inefável
Onde o verbo e o vento tomam forma...

(sem data)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A Refém do Minuano (de Alma Welt)

Para acatar feliz o meu destino
Devo na vida evitar comparações.
Serei mera rabeca ou violino
Dependendo das futuras gerações.

Todavia a tentação de vaticínios
Também a mim me pega e angustia.
Escolher entre vinho e laticínios
Não foi a minha escolha da poesia.

Nasci poeta, o verso me tomou
Quando ainda nem bebia o mate
E acho que o vento me levou.

Na alma sou refém do Minuano
Que me cobra uns sonetos de resgate
Quando por mim passa a cada ano...

13/09/2001